ecologia

VILA DE PARANAPIACABA

Paranapiacaba, em tupi-guarani, quer dizer: "lugar de onde se vê o mar". Enquanto a ferrovia Santos-Jundiaí, herdeira da São Paulo Railway, esteve funcionando a todo vapor, a Vila de Paranapiacaba ainda tinha um pouco de "vida". Inserida no Parque Estadual da Serra do Mar, próxima à Campo Grande, em Santo André, fazendo divisa com o Município de Mogi das Cruzes, diríamos que juntamente com a Calçada do Lorena, localizada na Estrada Velha de Santos, em São Bernardo, a vila é um local lindíssimo e abandonado pelo poder público que não tem manifestado intenção política em sua exploração turística. Por pertencer a rede ferroviária a Prefeitura de Santo André sente-se impotente ou "desobrigada" a cuidar dessa área. Se bem que nos últimos anos algumas ações pífias têm acontecido naquele núcleo. Quem visita Paranapiacaba pode perceber o abandono por que passa o local, sendo comum nos depararmos com estudantes desorientados perambulando de um lado para outro sem saber o que fazer, ou que rumo tomar. A Vila de Paranapiacaba nasceu devido a necessidade da empresa São Paulo Railway, construtora da linha férrea, ligar o planalto paulistano a baixada santista. A fim de vencer o enorme desnível que havia na Serra do Mar foi montado um acampamento para os trabalhadores da ferrovia, que acabou se consolidando num núcleo que permanece com suas características principais até os dias atuais, se bem que devido a falta de uma fiscalização por parte da empresa e dos poderes públicos, inseriu-se na localidade algumas anomalias, como reformas que desfiguram esse rico patrimônio. Durante os trabalhos de preparação do leito e instalação da linha com 139 km, foi necessário que se construísse um acampamento no alto da Serra do Mar, a 796 m do nível do mar. O local escolhido para o acampamento principal ficava no topo da serra e era próximo das obras. Esse local - que era um vale circundado por morros onde a companhia, circunstancialmente, instalou o pessoal operacional, técnico e administrativo do sistema ferroviário - denominou-se Alto da Serra, que viria a se transformar na vila de Paranapiacaba. A vila é composta por Parte Baixa e Parte Alta. Não se pode afirmar com precisão quando se formou a Parte Alta, mas sabe-se, com certeza, que ela nasceu através da implantação da ferrovia e, quando esta foi inaugurada em 1867, uma pequena aglomeração já existia na Parte Alta. Era um pequeno povoado de casas de pau-a-pique e palha, quando Bento José Rodrigues da Silva, saindo de Mogi das Cruzes, construiu uma picada que finalizava no Alto da Serra. No local de chegada, em 1889, foi erigida a igreja matriz. "Nesta fase inicial da construção, houve a ocupação dos locais hoje correspondentes à Vila Velha a partir da Parte Alta, por um acampamento de operários. (…) Foi determinado um eixo principal - Rua Direita, que dava acesso aos depósitos e oficinas, distribuindo-se desordenadamente em torno desta rua as construções dos operários: ainda os mesmos casebres de pau-a-pique ou pau roliço amarrado, cobertos de sapé. A Companhia tinha suas construções (…) cobertas com folhas de ferro galvanizado ondulado". No período que vai de 1860 ao final de 1899, a Parte Baixa, manteve, basicamente, as características e a feição de acampamento que serviu de alojamento dos operários construtores da ferrovia, sendo que a partir daí e até os dias atuais, muitos dos descendentes desses operários ainda moram nas mesmas casas. A Parte Baixa: composta pelo núcleo original, era conhecida por Vila Velha ou Varanda Velha e a parte projetada, Vila Martin Smith ou Vila Nova, já a Parte Alta ou Morro ou Vila dos Aposentados, era também conhecida por Parte Civil, já que era habitada por pessoas que não trabalhavam na ferrovia. Parte Alta é o local "que foi se escalando um dos morros de fechamento do vale" e onde se registra uma ocupação com forte herança dos imigrantes portugueses, percebida facilmente na rua principal, onde em lotes estreitos e alinhados se formaram residências geminadas compondo uma única fachada contínua multicolorida, com usos em geral misto, residencial e comércio. De fato, o alinhamento dos sobrados geminados da Rua William Speers, conjuntamente com a igreja e cemitério, são os principais referenciais da Parte Alta. A Parte Elevada da Vila de Paranapiacaba, hoje integrante do município de Santo André, surgiu em decorrência dos ferroviários aposentados não desejarem abandonar a região pela qual sentiam muito carinho. O estilo arquitetônico das moradias não acompanhou o original da Vila Ferroviária, sofrendo inúmeras modificações ao longo do tempo.

VILA NOVA OU VILA MARTIN SMITH

Com a construção da segunda obra de subida e descida da serra, o núcleo original se estendeu para as áreas vizinhas ao longo do vale. Essa expansão urbana teve um controle mais rígido e planejado, dando início à implantação de um modelo urbano projetado: a Vila Nova ou Vila Martin Smith. Esse novo conjunto projetado pela Companhia, formava um sistema disciplinarmente organizado através de uma técnica de aglomeração dispostas hierarquicamente e conforme um arranjo que definia o desenho das habitações. Isto vinha reforçar o aspecto britânico das construções já existentes, que eram arquitetonicamente diferenciadas pela utilização de sistema construtivo em madeira, a maioria em pinho de riga, porém trazia novidades quanto ao sistema construtivo, pois as habitações possuíam uma tipologia pré-definida.

O SISTEMA FUNICULAR

Os ingleses, aliados aos mais renomados engenheiros europeus, vieram ao Brasil executar o projeto de ligação da ferrovia entre o Planalto Paulista e a Baixada Santista na Serra do Mar, cuja implantação foi dividida em duas fases distintas:

Primeiro Período: 1860 a 1899
Segundo Período: 1900 a 1946

Instalação do 1º Sistema Funicular (Serra Velha)

Roda de inércia da Máquina Fixa - Sistema Funicular

Essa primeira fase correspondeu à instalação da primeira ligação conhecida como Primeiro Sistema Funicular ou Serra Velha. Este se constituía de quatro planos inclinados interligados por patamares, onde estavam instalados sistemas de máquinas fixas acionando cabos de aço ("tail end") que sustentavam a locomotiva e composições na subida e descida da serra, numa extensão total de aproximadamente oito quilômetros. Em 1864, estava pronto o primeiro trecho. A 16 de fevereiro de 1867, o sistema foi inaugurado, em caráter provisório, com duas viagens diárias. No término das obras, a grande maioria dos trabalhadores foi dispensada, ficando apenas aqueles necessários para a manutenção dos serviços de conservação da ferrovia, do maquinário e das operações de tráfego, dando origem ao vilarejo então denominado Alto da Serra, atual Vila de Paranapiacaba. Ainda nessa época, o povoado da região não era muito mais que um acampamento. Após a inauguração da estrada, apenas um número muito reduzido de empregados, que se encarregariam do tráfego local, permaneceram na vila. Com o desenvolvimento da lavoura cafeeira, cresceu o tráfego da estrada de ferro, estimulando a expansão do núcleo urbano do Alto da Serra. Apesar desse desenvolvimento, Alto da Serra só deixou de ser um núcleo urbano acanhado, formado com casas de barro e sapé, no final do século XIX, quando a São Paulo Railway construiu o segundo funicular. Devido a rápida expansão econômica da região planaltina, o escoamento da produção de café foi tornando-se insuficiente, necessitando de novas alternativas, resolvidas a partir da construção do Segundo Sistema Funicular ou Serra Nova. Este executava suas operações em cinco planos inclinados por meio de cabos de aço contínuos que tracionavam as composições movidas por cinco máquinas fixas, assentadas nos patamares. Em fins de 1899, foram concluídas as obras do segundo plano inclinado, que foram inauguradas no início de 1900. Em outubro deste ano, o segundo funicular começou a operar, sendo definitivamente entregue ao público, em 28 de dezembro de 1901.

Após 1946

Em 1946, expirando-se o prazo de concessão de noventa anos, a estrada de ferro foi encampada pela União (decreto de 13 de outubro de 1946), passando a se denominar Estrada de Ferro Santos - Jundiaí. Os antigos moradores afirmam que foi a partir desta data que começou a decadência do núcleo. Na década de 1960, começaram os estudos para o aumento da capacidade de tráfego Santos - Jundiaí, o que resultou na implantação do sistema de esteiras dentadas construído exatamente em cima do traçado da Serra Velha. Assim, inaugurava-se, em 1974, a chamada cremalheira-aderência, com tecnologia japonesa. É um sistema detração, parecido com a operação de escadas rolantes, com engrenagens que se juntam e se ajustam às locomotivas, que, além das rodas convencionais, possuem uma terceira roda dentada, no meio da composição, que se ajusta às cremalheiras. Com o sistema aderência-cremalheira, desapareceu o primeiro plano inclinado construído na década de 1860. O Segundo Plano Inclinado continuou em atividade até 1982, sendo então desativado comercialmente. De 1896 a 1990, mais ou menos, no trajeto que corresponde à ligação do Quinto Patamar na Vila de Paranapiacaba com o Quarto Patamar, na Grota Funda, o Segundo Plano Inclinado foi operado, precariamente, por funcionários de uma entidade civil denominada ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária). O mesmo se dava aos fins de semana, apenas para atender fins turísticos. Paranapiacaba, portanto, pode ser considerado patrimônio de interesse internacional pelos seus famosos sistemas funiculares de cabos de aço que tracionavam os trens: o primeiro, inaugurado em 16 de fevereiro de 1867, e o segundo, em 28 de dezembro de 1901.